Quinta-feira, 16 de Julho de 2009

"O único problema é o calor no verão"


La Vieja não sabe se o mais assustador é a secretária de Educação do novo jeito de enlatar não ver problema algum em se alfabetizar crianças em contêineres - "Não há nada de errado dentro desses contêineres (...), declarou à Zero Hora -, ou Mariza Abreu ter afirmado que tais escolas, na medida em que um contêiner pode assim ser designado, "são melhores que muitas (...) do Estado".

"O único problema é o calor no verão", finalizou.





"Educação: último lugar do ranking" é de Kayser.

Sábado, 11 de Julho de 2009

Taryn Szpilman



Taryn Szpilman interpreta "These are the songs", de Tim Maia.

Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

Sobre "jeitinhos"




Ele domina. Ela quica, inquieta. "Decifra-me ou te devoro", desafia. Ele então a acalma na coxa esquerda. O drible para dentro sai rápido, e lá fica parado o primeiro adversário, prenunciando o dribe com a esquerda, agora já agudo, que deixa o segundo pelo meio do caminho. Mais um toque com a esquerda e o terceiro João, o que vem de trás e atropela, come poeira, não sem antes um leve toque de direita já preparar a fuga, com mais um toque de esquerda, do quarto, o da tesoura desleal, não sem razão ex-gremista. Fuga que já prenuncia o pior para a torcida que pensa ter conquistado o mundo da bola. Ou o melhor, para o regozijo dos deuses que o criaram.

E vem mais um toque de esquerda, agora ainda mais agudo, que deixa o beque de espera sem pai e nem mãe, logo no seu dia. Pobre mãe corintiana. E mais um de esquerda, bem leve, só para reposicionar o corpo, agora já dentro da área, que beque de sobra corintiano vencido bate como gremista.

Mas - congelam-se as respirações e mais nada se ouve na plateia -, ainda há um beque, ela parece que vai fugir e o campo está acabando: o que fazer? Concluir atabalhoadamente, como os olímpicos avantes louros argentinos? Desistir de tudo e usar a canela, como os toscos ingleses? Cair espalhafatosamente na área, lamentando o rasgo no uniforme desenhado por Armani, como os italianos? Não, não mesmo. Para tudo há um "jeitinho", como dizem os brasileiros. Porém, não o daqueles que transportam, de avião, sogras e esposas para a Europa com o dinheiro público, e sim o daqueles que jogam peladas em intervalos de tijolos e andaimes, olhos embotados de cimento e lágrima.

"Deixa-se ela correr mais um pouco", ensinam, "só para ver a cara do beque. É ela que diz o que se faz. Se ele está apavorado, já sem saber o que fazer, basta preparar o tiro. De calcanhar, de preferência, para que a história nada credite ao acaso, que pelada que se preze jamais é filmada".

Ela corre mais um pouco, mas não foge e nem o campo acaba. Um leve toque de calcanhar tira mais um defensor e a prepara para o arremate certeiro, de destra. Agora ela jaz, decifrada, onde se enleva.

Seis adversários batidos, um petulante goleiro vencido e uma nação de joelhos.

Nilmaravilha, nós gostamos de você.




Sugestões e reclamações podem ser encaminhadas
para os seguintes endereços eletrônicos:

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bentoxvi@vatican.va (em português)

Domingo, 5 de Abril de 2009

05 de abril




La Vieja
não quer comentar nada sobre a extravagante, abusiva, debochada e quase surreal superioridade colorada sobre a gloriosa agremiação da Azenha.

Não no dia em que o mais vitorioso e aguerrido zagueiro colorado de todos os tempos fez sua 200º partida pelo Internacional, o 100º golo no 100º grenal
nos melhores gramado e estádio brasileiros e quase igualou o recorde de tentos do melhor beque da história do futebol mundial, Don Elias Figueroa.

Não um dia depois do centenário da mais internacional das agremiações gaúchas.

Não no dia em que Bolívar completou 11 clássicos invicto.

Não, não. Desta vez, nada de rotineiras insinuações. Não convém que se tornem rotina.

La Vieja tem vaga noção do atual pesadelo gremista. Nos anos 90, comemorando no máximo uma Copa do Brasil ganha com uma penalidade máxima duvidosa e mal batida, teve uma pequena amostra desse ostracismo gremista.

La Vieja, hoje, em solidariedade, está lírica.

Dirá, somente, num poemeto modernista ou algo que o valha, algumas poucas palavras.

A curiosidade é que ele foi feito somente com as letras presentes no termo grenal, além de alguns acentos e sinais gráficos, que ninguém aqui é um Haroldo de Campos. E sejam solidários com as licenças poéticas, por gentileza.

Ei-lo, para o bem ou para o mal da literatura:


GRENAL


GANA
E
GALA
ALEGRAN
LEGAL
NEGRA
GERAL,
GENE
REAL.

E
LÁ?

ELA,
"A"
GERAL,
GANE,
ANARELA
E
GELA
GERAL.

LEGAL.






(No retrato, de Valdir Friolin para a Zero Hora, Índio comemora seu 24º tento com o sagrado manto colorado, ficando a dois de igualar a marca de Don Elias. O nome de Índio é Marcos Antônio de Lima, que em tupi-guarani significa "O Escalpelador de Imortais")

Sábado, 4 de Abril de 2009

04 de abril




Santiago do Boqueirão
, final dos gloriosos anos 70.

Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

O direito penal de ZH


Embora o argumento mais sólido apresentado por ZH em defesa da tese de que o empresário Luis Antônio Lima é um petista - quase um desaforo, para a direita guasca mentalmente trôpega - seja a afirmação de que o referido consultor tem "(...) ligações no PT (...)", o jornaleco da Azenha parece não ter pensado duas vezes antes de publicar, no último dia 30, a chamada acima recortada.



Outro tratamento, no entanto, foi reservado a Francisco Fraga, ex-secretário de Governo de Canoas, réu no processo do Detran e um dos principais investigados na Operação Solidária, que também teve bens bloqueados pela Justiça recentemente.

Embora até as cadeiras de rodas doadas por Sérgio Zambiasi saibam que o DNA de Chico Fraga é petebista, o "suspeito da solidária" não é associado, na chamada acima, ao seu ex-partido, o PTB. Nada impedia que a chamada fosse, por exemplo, "Justiça bloqueia bens de ex-petebista envolvido da Solidária". Nem na matéria, aliás, se encontra qualquer referência ao seu ex(?)-partido.




Por que cargas d'água foi o critério de uma suposta relação partidária que, no caso de Luis Antônio Lima, orientou a elaboração da chamada "Justiça bloqueia bens de consultor petista"? E se esse é um bom critério, por que ele não foi adotado para noticiar a indisponibilidade dos bens do ex-petebista Chico Fraga?

O maior crime de Luis Antônio Lima, ao que tudo indica, pelo menos para ZH, parece ter sido o de aparentemente ser petista. Pouco importa, por outro lado, se Chico Fraga é ou foi petebista, progressista ou tucano. Desde que não se seja petista, tudo é permitido no Código Penal do Grupo RBS.

Zh personaliza ou partidariza o debate público quando convém a seus interesses de classe. Nessas horas, entretanto, nenhum inocente útil clama por pacificação.

Isso pode ser chamado de qualquer coisa, menos de jornalismo.

Sobre protestos e manifestações


O recorte acima refere-se à recente manifestação de centrais sindicais, partidos políticos, movimentos sociais e estudantes pela redução da taxa de juros, por mais investimentos públicos e contra o desemprego e as recentes demissões ocorridas na iniciativa privada.

O protesto dos trabalhadores, segundo o jornaleco da
Azenha, deixou "o trânsito congestionado na região central de Porto Alegre". Essa é, inclusive, a chamada da matéria.

Trabalhadores, como se vê, congestionam o trânsito quando prote
stam.

"O trânsito ficou congestionado nos dois sentidos da via", informou ZH quando os manifestantes passavam pela avenida Farrapos. "Na Avenida Mauá o trânsito precisou ser interrompido", afirmou ZH quando os manifestantes entraram na região central da capital guasca. "
O trânsito ficou congestionado na região central da Capital", finalizou ZH quando os manifestantes se concentraram em frente ao Palácio Piratini.




Já o recorte acima, por sua, vez, refere-se à manifestação que ocorre neste momento em frente ao Palácio Piratini, em apoio à governadora Yeda Crusius (PSDB).

Organizada pelo próprio partido da governadora, "em contraponto aos frequentes protestos organizados pela oposição", garante ZH, "O movimento começou a ser organizado no meio da manhã, com a presença de políticos, líderes e filiados da legenda vindos do Interior". Por volta do meio-dia, continua ZH, pouco antes da governadora aparecer na porta do Palácio, "começaram a chegar ocupantes de cargos em comissão no governo que trabalham na Capital. Um carro de som foi posicionado em frente ao Piratini para tocar o jingle da campanha de 2006".

Apoiadores de Yeda Crusius, como se vê, não fazem protestos, mas organizam manifestações. Embora o trânsito também tenha ficado congestionado da região central de Porto Alegre, ZH não prestou o serviço de utilidade pública que costuma prestar quando trabalhadores protestam no centro da capital.

Isso, evidentemente, porque trabalhadores não organizam manifestações, mas só protestos.


La Vieja só pede três esclarecimentos:

(i) Por que os manifestantes ligados a movimentos sociais, partidos políticos, movimento estudantil e centrais sindicais são trabalhadores, enquanto
políticos, líderanças tucanas e ocupantes de cargos em comissão no governo Yeda Crusius não, se trabalham tanto quanto aqueles primeiros? O termo trabalhadores só pode ser usado quando há congestionamentos e tumultos por sua evidente associação subliminar ao Partido dos Trabalhadores (PT)?

(ii) Por que ZH não informou que a manifestação a favor de Yeda Crusius em frente ao Palácio Piratini também congestionou o trânsito na região do Palácio Piratini?

(iii) Porque o protesto dos trabalhadores está na editoria Geral de ZH, enquanto a manifestação a favor de Yeda Crusius está na editoria de Política? O protesto dos trabalhadores não foi um ato político por excelência? Tratá-lo com tal desprezo semântico não revela uma evidente tentativa de despolitizá-lo, como se todo ato politico fosse necessariamente de apoio, mas jamais de protesto? Protestar contra uma determinada situação política com a qual não se concorda não é mais fazer política? Fazer política só é, então, manifestar-se a favor de Yeda Crusius?

A fuga da Rainha


Diante da ausência de previsão orçamentária e da impossibilidade de suplementação de verba para a aquisição de um instrumento voador neste ano, além, sobretudo, da penúria dos cofres públicos guascas, só uma razão justifica a insistência da governadora em adquirir um novo avião.


Yeda Crusius vai fugir.

Quarta-feira, 1 de Abril de 2009

Sobre mantos sob medida


Amnésia é de Eduardo Simch.


Sobre a estapafúrdia defesa da irrevisibilidade da Lei da Anistia em função de uma sua supostamente justa amplitude principiológica, cf. "Sobre homenagens", "Sobre focos" ou "Em seu devido lugar", onde La Vieja defende que aquilo que se toma


"(...) como princípio da Lei da Anistia, 'a saber: o perdão a todos os cidadãos acusados de cometer crimes políticos', ou seja, sua amplitude, é uma falácia que (...) subsume duas verdades históricas irreconciliáveis. Só faríamos justiça com nossa memória se exclusivamente fosse considerado crime político todo aquele ato praticado contra o aviltamento da democracia patrocinado pela caserna, e jamais aqueles praticados contra esse justo e legítimo direito de sublevação cidadã pelo Exército, o único criminoso durante a recente ditadura militar brasileira. O direito ao exercício da repressão oficial, obtido injusta e ilegitimamente pelos militares a partir do golpe antidemocrático de 1964, exercido a todo vapor contra um legítimo e justo direito à sublevação, portanto, jamais poderia ser considerado crime político ou conexo a crime político, uma vez que praticado ao arrrepio da ordem democrática vilipendiada pelos próprios militares (...)".

Sábado, 28 de Março de 2009

"... los unía el desprecio por la vida ..."


Segundo informa o uruguaio La Republica, "La Justicia condenó ayer a penas de entre 20 y 25 años de penitenciaría a ocho militares con activa participación en la represión dictatorial, por el homicidio de 28 personas. Veinticuatro años después de reinstaurada la democracia se concreta la primera condena".

"El juez penal de 19º Turno, Luis Charles", recordou em sua sentença "que los hechos denunciados, el secuestro y traslado ilegítimo al Uruguay de 28 personas, se encuadran dentro del 'período dictatorial cívico-militar, comprendido entre los años 1973-1985 y responden a la coordinación operacional de las cúpulas de los gobiernos de hecho que regían en Argentina, Brasil, Bolivia, Chile, Paraguay y Uruguay', en el denominado 'Plan Cóndor'" (O grifo é meu).

"Los represores encausados 'actuaron dentro del contexto de coordinación operacional' de los gobiernos de la región", afirmou ainda Luis Charles, e "los unía el desprecio por la vida de aquellos que consideraban sus enemigos y entonces como manos ejecutoras del terrorismo de Estado, vulneraron no sólo manuales de procedimientos, lo que poco importaría, sino fundamentalmente derechos inherentes a la persona humana, utilizando para ello métodos degradantes".

"En suma - sentenciou o juiz uruguaio, los encausados constituyeron un grupo que actuó en un teatro de operaciones que no reconocía fronteras ni nacionalidades de las víctimas, con plenos poderes, pues no sólo no se sujetaban a reglas del derecho positivo, sino tampoco morales o éticas, por lo que son ahora responsabilizados".



À memória de Adalberto Soba Fernández, Alberto Mechoso Méndez, Rafael Lezama, Miguel Moreno, Casimira Carretero, Juan Pablo Recagno, Washington Queiró, Walner Bentancour Garín, Carlos Rodríguez, Julio Rodríguez Rodríguez, Rubén Prieto, Juan Pablo Errandonea, Raúl Tejera, Mario Cruz Bonfiglio, Armando Bernando Arnone, Washington Cram, Cecilia Trías, Segundo Chejenian, Graciela Da Silveira, Victoria Grisonas, Roger Julien, Maria Emilia Islas, Jorge Zaffaroni, Josefina Keim, Juan Miguel Morales, Ary Cabrera, León Duarte e Gerardo Gatti.






(No retrato, imagem da capa de hoje da edição impressa do La Republica)

Sexta-feira, 27 de Março de 2009

Novo jeito de investigar


Segundo informa o jornaleco da Azenha - cujos profissionais deram agora para ter melindres e, como diz o vulgo, pitis com análises estéticas e técnico-profisionais tecidas sobre suas suscetíveis atividades -, "Quatro vereadores e dois assessores da Câmara de Guaíba estão desde quarta-feira em uma viagem de quatro dias à Brasília para um curso de aperfeiçoamento profissional".

Um dia inteiro desses quatro, ainda segundo o jornaleco, foi dedicado ao credenciamento dos nobres edis guaibenses.

Cleusa Maria Souza, Luiz Edgar Graboski Leite, Orassi Carlos Nunes Orestes e Antônio Rodrigues dos Santos são os tais vereadores, que receberão R$ 2.750 cada em diárias, ao final dessa odisséia em nome do interesse público.

Que custou, além das diárias e, é claro, das passagens aéreas e demais deslocamentos, módicos 360 contos por cabeça.

Porém, noticiar somente isso, evidentemente, é ficar no nível rasteiro do jornalismo investigativo de ZH, que considera gran cosa, por exemplo, ficar de campana (salve, Ungaretti!) atrás de semianalfabetos políticos.

Estabelecer relações entre atos políticos de subordinados e interesses e estratégias político-eleitorais decididas em gabinetes, como se sabe, é algo que só é feito por ZH quando o PT governa o RS.

Os partidos dos referidos vereadores, que ZH não informa, são PTB (Antônio Rodrigues dos Santos), PMDB (Cleusa Maria Souza), DEM (Luiz Edgar Graboski Leite) e o "Partido da Ética", o PP (Orassi Carlos Nunes Orestes), como facilmente pode ser conferido na página da Câmara de Guaíba.

Todos eles, coincidentemente, integrantes da base de apoio do novo jeito de governar, até agora imune ao jornalismo investigativo de ZH.

Segunda-feira, 23 de Março de 2009

Do além


Fantasmas é de Eduardo Simch.

Domingo, 15 de Março de 2009

Tuhu




Turíbio Santos, uma de nossas maiores personalidades culturais, e o Choro n° 1, para violão solo, composto em 1920 por Heitor Villa-Lobos (1887-1959).

Nos 50 anos da morte de Heitor Villa-Lobos, o compositor brasileiro de maior repercussão internacional, o projeto Música no Museu abriu a temporada mundial de homenagens a "Tuhu" no dia 9 de janeiro último, no Centro Cultural Justiça Federal (Rio de Janeiro, RJ), com o pianista Luiz Carlos de Moura Castro. O ano Villa-Lobos tem como tema "O homem, o artista e sua obra" e terá 48 concertos dedicados ao compositor, no exterior e em várias cidades do Brasil.

Menos em Porto Alegre, claro.


Sexta-feira, 13 de Março de 2009

Sobre focos



Considerando-se que o líder espiritual e chefe de Estado da Igreja Católica Apostólica Romana é
um contumaz acobertador de pedófilos, o que mais me impressionou no episódio de excomunhão pernambucano não foi o fato de lideranças católicas considerarem algumas palavras sem sentido mais importantes do que uma vida humana, mas sim o fato das pessoas ainda se preocuparem com o que a Igreja pensa sobre os fatos do mundo. A única coisa que isso diz sobre nossa espiritualidade é que ela precisa confessar-se com urgência.

Porém, uma vez que a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) deve estar preocupadíssima com o destino dos fetos abortados, já que Joseph Ratzinger recentemente acabou com o limbo - local à margem do Paraíso onde ficavam as almas de crianças, bebês e fetos que morreram sem o batismo, mais os homens de bem que viveram antes da vinda de Jesus - por decreto, alcanço minha solidariedade a esses magnânimos teólogos. Não é nada fácil, simultaneamente, estar em contato com Ele e lidar com uma doutrina que tem os pés na realidade mundana.

Como se vê, Ele deu a Ratzinger tanto o poder de, em nome da humanidade, perdoar os crimes de seus pares quanto o de acabar, por decreto, com suas prováveis criações.

Bem, mas se Deus existe e criou x e x tem um estatuto ontológico, então nenhum decreto humano seria capaz de acabar com tal estatuto. Se isso fosse possível, ou bem x só teria existido nos pensamentos mundanos, ou bem Deus não teria sido muito sábio, pois embora onipotente - já que poderia ter criado o homem de tal modo que fosse esse capaz de revogar por decreto uma sua criação -, não teria dado grande mostra de sabedoria ao criar algo que, depois, precisasse ser extinto, ainda mais pelo homem, um ser que ouve funk. A menos, claro, que ele quisesse que isso se desse assim, pois estamos tratando de um ser onipotente, como se disse. Como se sabe, mesmo por linhas tortas Ele escreve certo, pois Perfeito.

Bem, como não podemos penetrar nos desígnios divinos - o que não autoriza especulações sobre a sabedoria ou não de Seus atos - e não temos acesso epistêmico a todas Suas criações, ao menos nos consola saber que é bastante provável que os fetos abortados "tenham sido confiadas à misericórdia de Deus", como reza agora a boa doutrina.

Mas, do que é mesmo que estávamos falando? Ah, sim, de uma menina de nove anos estuprada continuamente desde os 6 por um membro de sua família e grávida de 4 meses. Nada, enfim, que mereça qualquer atenção.





(No retrato, a obra "A descida ao limbo", de Andrea Mantegna, 1431/1506)

Domingo, 1 de Março de 2009

Rotina


Quando Jonas inteligentemente escorou para a conclusão perfeita de Alex Mineiro, La Vieja achou que Tite faria aquilo que todo gremista que olhava a tática do grenal 375 esperava: mexer no meio-de-campo colorado, sacando Magrão ou Andrezinho.

Ambos, mais Guiñazu e Sandro, foram responsáveis pelo aniquilamento do meio-campo gremista durante o primeiro tempo da partida, o que transmitia a impressão de que a defesa colorada poderia matear despacita durante os 45 primeiros minutos do clássico que não seria incomodada, não obstante tenha sido competente por seus próprios méritos sempre que exigida.

Precedentes não faltavam para Tite, pois Andrezinho já amarrara o jogo colorado em uma que outra oportunidade, tanto na marcação quanto na criação. A bem da verdade, ninguém consegue impor seu estilo, e o de Andrezinho é mais cadenciado, sem sequencia de jogo.

Dessa vez, no entanto, foi diferente. O Inter marcava bem e saía rápido para o contra-ataque, o que forçou a defesa gremista a fazer o que melhor tem feito em grenais: bater em Taison e em Nilmar. D'Alessandro também serve, mas não estava em campo.

Porém, alguma luz, talvez aquele raio que iluminou Figueroa em 1975, fez com que Tite não tivesse idéias. Caso tivesse mexido no meio-campo colorado após o golo gremista, teria cometido o mesmo erro do recente jogo contra os mato-grossenses do União, pela Copa do Brasil. Não há substituto para Magrão, no atual elenco colorado, e Andrezinho é o quinto titular do meio-campo. Substituições na intermediária da Academia do Povo, só no desespero.

Celso Roth, por sua vez, fez desde o início aquilo que todo colorado esperava que fizesse: manteve Jonas no banco. O mais perigoso e eficiente atacante gremista, no entanto, pouco ou nada poderia ter feito nos 45 finais, uma vez que nem Dunga é capaz de entender que espécie de orientação Roth passa para seus meiocampistas antes do início da partida. Um sujeito que consegue transformar Souza em um burocrático meia e Tcheco em uma espécie de carregador de piano, por vezes visto até batendo em Taison, deve algumas explicações para sua torcida.

O que La Vieja não entende é o que o Grêmio, um time de Libertadores, quer com Alex Mineiro. Uma coisa é ter em campo um Romário em fim de carreira; outra, bem diferente, é manter até o final um jogador com lapsos de criatividade.

Não durou muito tempo a esperança gremista. Em poucos minutos o meio-de-campo colorado voltou a se impor, na maior prova de que esse é o setor de qualquer time que mais precisade ritmo, mesmo depois de um que outro revés contingente, e entrosamento. Naturalmente a bola voltou a girar de pé em pé e de um lado a outro do campo, numa facilidade constrangedora para, La Vieja ratifica, quem tem Souza e Tcheco no mesmo meio-campo.

La Vieja via isso tudo cristalino suportando a boçalidade do comentarista da RBS, que quase exigia a saída de Magrão logo após o tento gremista ter sido anotado com uma categoria invulgar. Até em futebol, algo fácil de ser analisado, eles são ruins. É impressionante.




Hoje, em solidariedade, é sem flauta. Gremistas andam chorosos, desanimados e abatidos com
o retrospecto do clássico, culpando tabela, arbitragem, gramados e até o vento. Como diz o vulgo, o freguês sempre tem razão.





(No retrato, de Alexandre Lops, Nilmaravilha subjuga um limitado, porém esforçado, Adílson)

Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

Santificado seja o vosso nome




O coro dos contentes é de Eduardo Simch.

La impunidad, herida de muerte


"A partir de la sesión del pasado miércoles 25 que celebró la Asamblea General del Poder Legislativo, ya nada será igual. La impunidad está herida de muerte y sólo falta que el pueblo le dé el tiro de gracia anulándola para, de ese modo, borrar definitivamente una rémora vergonzante del pasado ominoso.

Estamos de acuerdo en que la declaración del órgano legislativo no es vinculante y que sólo compete a la Suprema Corte de Justicia dictaminar sobre la inconstitucionalidad de la norma. También sabemos que el doctor Julio María Sanguinetti tenía razón cuando decía que la decisión de la Asamblea General no tendría efectos jurídicos y que todo se limitaría a una declaración sin consecuencias. Pero si bien la declaración del Parlamento no tendrá efectos derogatorios ni incidirá en la decisión última de la SCJ, yerra el senador Sanguinetti pues las consecuencias políticas de esta declaración del Parlamento resultan incalculables.

En primer lugar, es preciso resaltar un aspecto nada menor: el profundo significado simbólico del pronunciamiento. Es por demás trascendente que 22 años después de que en ese mismo recinto parlamentario una mayoría circunstancial de legisladores pusilánimes aprobara esa ley odiosa, la mayoría conformada por la totalidad de diputados y senadores del Frente Amplio se haya pronunciado por la inconstitucionalidad de la misma ley. El hecho viene a resultar una suerte de oficialización del sentir de la sociedad; y decimos esto porque nos consta que hoy, la casi unanimidad de la población estaría dispuesta a acompañar con su voto la anulación de la norma en cuestión.

Al mismo tiempo, el debate y la posterior declaración de la Asamblea han colaborado a abrir la puerta entornada convirtiéndose en una luz verde a la campaña por la anulación de la Ley de Impunidad. Es un estímulo nada despreciable para continuar la recolección de firmas y obtener luego el pronunciamiento que todos esperamos de la ciudadanía.

Por otra parte, el debate en sí, las intervenciones y discursos de los participantes, toda esa confrontación de ideas, convicciones y puntos de vista, fue particularmente enriquecedor. Permitió exponer todos los argumentos a favor y en contra de la ley, recordar hechos del pasado, reconocer que la "lógica de los hechos" no es hoy la misma de hace 20 años, admitir que en aquel entonces la presión militar fue insoportable y que tanto los legisladores que votaron a favor de la impunidad como los ciudadanos que la ratificaron dos años después lo hicieron bajo presión y bajo la amenaza de un desacato militar. Esto es de extrema importancia, ya que justifica la revisión de la legitimidad de la norma y habilita su anulación.

Asimismo, la instancia del miércoles sirvió para derribar definitivamente ciertos mitos y afirmaciones repetidos como verdades axiomáticas. A medida que transcurría el debate, y a pesar del alegato del senador Sanguinetti tratando de equiparar la impunidad con la amnistía para los presos políticos, la teoría de los dos demonios fue despedazándose hasta convertirse en una montaña de polvo que el futuro se ocupará de recordar para demostrar hasta dónde puede llegar la mentira histórica. Al respecto, fue clave la intervención de Eleuterio Fernández en uso de una interrupción que gentilmente le concedió Daniel García Pintos. El ex guerrillero, con su ironía habitual, hizo ver la falacia de poner en un mismo pie de igualdad a víctimas y victimarios, como si fueran la misma cosa luchadores y represores, como si Gavazzo y Henry Engler compartieran las mismas características intelectuales y morales. A tal punto esto es así que el senador Luis Alberto Heber reconoció --creemos que por primera vez públicamente-- que si bien condenaba el accionar de la guerrilla, consideraba mil veces peor la acción de los terroristas de Estado.La impunidad está herida de muerte. Tal vez se pueda decir que ya lo estaba cuando se produjo el encarcelamiento de los primeros terroristas, pero no hay dudas de que el país se está quitando un lastre ominoso que nos avergonzó durante más de veinte años" (Os grifos são meus).




La Vieja reproduz, acima, editorial de hoje do periódico La Republica, que trata da declaração, pelo legislativo uruguaio, da inconstitucionalidade da "ley 15.737, conocida como ley de Amnistía".

Essa mesma edição traz ainda a carta do tenente coronel José Nino Gavazza, preso por violações dos Direitos Humanos durante o período ditatorial uruguaio, ao senador Jose Mujica. Para o militar, segundo o La Republica, "es traición revelar el destino de los patriotas, que su banda torturó, ejecutó y mantiene aún desaparecidos", como mostra, acima, a capa de hoje do periódico. O jornal uruguaio ainda referiu-se à carta como "la amenaza del asesino a sus compañeros de armas para que no se rediman de sus crímenes de lesa humanidad".

O lúcido editorial chega em um momento de indigência intelectual para o debate público sobre a revisão da Lei da Anistia brasileira patrocinado por nossa mídia hegemônica. Que tais ventos cheguem a este lado do rio Uruguai, com urgência.

Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

Cai o pano



"- Maldito seja Copérnico!


- Oh, oh, oh, o que Copérnico tem a ver com isso? - exclama padre Eligio.


- Tem sim, padre Eligio. Porque quando a Terra não girava...


- Mas ela sempre girou!


- Não é verdade! O homem não sabia disso e, por conseguinte, era como se não girasse. Para muitos, ela continua a não girar também agora. Eu falei que girava, outro dia, a um velho camponês; sabe o que ele me respondeu? 'Que era uma boa desculpa para os bêbados'".


Luiggi Pirandello. O Falecido Mattia Pascal.






Estranhamente, ninguém da platéia clamou por "pacificação" entre 1999 e 2002, quando a mídia hegemônica guasca e a oposição, em uníssono, declararam guerra ao governo Olívio Dutra (PT).

Toda a elite gaudéria aplaudia o espetáculo, do alto de seus camarotes. Flores eram jogadas quase em desvario, tão logo as cortinas voltavam a se abrir após o fim de mais uma encenação.

Dir-me-ão, provavelmente, que disso não se segue que tal pacificação não possa ocorrer agora, e que revanchismos só conduzem à irracionalidade.

De fato, o revanchismo não é benquisto entre cristãos, acostumados a oferecer a outra face. Mas, que bom que nem todos rezam pela mesma cartilha, não? Que bom, aliás, que alguns sequer rezam...

E, de fato, erros passados não justificam erros semelhantes, presentes ou futuros, como qualquer lógica informal bem demonstra.

Só o cinismo ou o analfabetismo político, porém, para lembrarmos aqui de um grande e engajado dramaturgo, fariam alguém confundir revanchismo com responsabilização. A pacificação política pela qual clama Luciano Alabarse - o que, em boa lógica, implica como contrapartida a existência de um estado de conflito político - passa, necessariamente, pela responsabilização moral dos protagonistas desse enredo.

O espetáculo que se descortina diante de nossos atônitos ou enlevados olhares, dependendo do lugar que ocupamos na plateia, não pode ser despersonalizado. Ele tem atores, um diretor, roteiro e atos. A narrativa é linear e o tempo é o cronológico, muito embora alguns se esforcem, sabe-se lá o porquê, para lhe atribuir a pecha de teatro do absurdo.

Nem isso é suficiente, todavia. Diferentemente do palco teatral, onde mesmo limites éticos são testados e quase todo mise em scène é tolerado, pois elemento da interpretação e fundamental para a construção narrativa, pelo menos para aquela que quer dizer alguma coisa, a arena política é o espaço da responsabilização par excellence, como diriam os conterrâneos de Racine e Molière.

E isso por uma razão muito simples: a política é o espaço da ética, e não do cinismo. Ao contrário do teatro, nenhum experimentalismo moral é bem-vindo em política, e todo jogo de cena só faz por merecer vaias. Há um escândalo de corrupção e investigações em andamento, donde se supõe que emergirão responsáveis. Declarações que comprometem sobremaneira nossa governadora foram feitas e esperamos explicações. É isso que publicamente precisa ser cobrado. Depois, as coisas até podem ser pacificadas. Em alguns contextos históricos a pacificação social foi possível, mas nesse caso não se trata disso. Sequer chegamos a tais extremos, a bem da verdade, a menos que se tome nosso pedante ufanismo como um sintoma de sua proximidade. Entretanto, mesmo assim ainda estamos distante de ouvir, ao longe, os violinos da concórdia, para de braços dados já corrermos todos nus e felizes pelo pampa guasca.

Portanto, não precisamos ter lido Macbeth para sabermos que é hora de responsabilizações, e que exigir isso não tem absolutamente nada a ver com revanchismos de qualquer ordem. Não enxergar isso, na melhor das hipóteses, é analfabetismo político, como já se disse.

Aliás, se é hora de experimentalismos cínicos, vamos arriscar o nosso. É falsa a famigerada dicotomia que divide gaúchos entre situação e oposição, gremistas e colorados, chimangos e maragatos, petistas e antipetistas. Há uma terceira via, a dos justos e equidistantes. É desses homens e mulheres, que na hora do aperto recorrem a discursos supostamente neutros, que precisamos. São tão equânimes que sequer têm nome; são conhecidos somente como aqueles que não se misturam. Buscam a pacificação acima de tudo, mesmo que para isso a despersonalização de seus discursos tripudie sobre a história e sobre a responsabilização moral. Enxergam além, esses homens e mulheres. São quase como que o super-homem nietzschiniano na versão gaudéria, uma espécie de supergaucho. Acima do bem e do mal, não entendem como os belicosos gaúchos não frequentam todos a mesma roda de chimarrão (o mate, quando sorvido em Porto Alegre).

Talvez, todavia, o Palácio Piratini esteja encenando "Assim é, se lhe parece", do grande Pirandello, e disso não saibamos. Talvez a política guasca seja absolutamente relativa e as coisas por aqui mudem totalmente de figura a cada olhar, dependendo da pessoa que observa, e cada representação no palco político guasca seja verdadeira para quem a vê como verdadeira. A verdade, nesse caso, seria absolutamente relativa, um verdadeiro nonsense. Não há verdade, não há história, não há responsabilizações... O que resta são silêncios e pacificações.

O que o Rio Grande do Sul precisa, realmente, é de gente que encene menos. Luciano Alabarse, de tanto teatro, talvez tenha perdido completamente a noção da realidade. Urge que saia de cena do debate público tão despercebido quanto entrou.

Aliás, o que exatamente Alabarse quis dizer com "Se até os índios americanos fumam o cachimbo da paz, por que não esperar que governo e oposição gaúchos pensem mais no bem do nosso Estado do que no umbigo que a natureza lhes deu?" (O grifo é meu). Que se selvagens como eles celebram a paz, nós, os esclarecidos, não temos razão para não fazê-lo?

É a mistura de analfabetismo político e de preconceito que leva à selvageria.







(Tartufi é de Hupper)

Sábado, 31 de Janeiro de 2009

Em busca dos responsáveis


Belém - Por que a mídia brasileira ainda pensa que é o Fórum Social Mundial que precisa oferecer respostas aos problemas criados pelo modo de produção capitalista? Ignorar tanto a Carta de Princípios do Fórum Social Mundial quanto os fatos que mudaram o mundo desde a realização do primeiro Fórum, ainda em 2001, em Porto Alegre, tem sido a estratégia da mídia para fugir da responsabilidade de tentar ouvir os principais responsáveis pelos atuais problemas da humanidade.

Segundo o décimo princípio dessa Carta, “O Fórum Social Mundial se opõe a toda visão totalitária e reducionista da economia, do desenvolvimento e da história e ao uso da violência como meio de controle social pelo Estado. Propugna pelo respeito aos Direitos Humanos, pela prática de uma democracia verdadeira, participativa, por relações igualitárias, solidárias e pacíficas entre pessoas, etnias, gêneros e povos, condenando todas as formas de dominação assim como a sujeição de um ser humano pelo outro”.

Ao contrário do que pensa a mídia hegemônica brasileira, que não faz mais do que ecoar o pensamento que tradicionalmente vê o evento como uma lúdica e inconseqüente aventura, a crítica ao reducionismo econômico foi uma das primeiras respostas do Fórum Social Mundial ao canto da sereia do neoliberalismo, que no começo desse século vivia seu apogeu por conta da adoção, pela maioria dos países da América Latina, só para não irmos muito longe, das teses do Consenso de Washington, então a tábua de salvação das economias dos países ditos subdesenvolvidos.

Hoje, oito anos e uma grande crise econômica depois, o recente fracasso do neoliberalismo provou que não só outra economia é possível como, também, que os diagnósticos iniciais do Fórum Social Mundial estavam corretos.A condenação do uso da violência como meio de controle social pelo Estado e da sujeição de um ser humano pelo outro, desde sempre foram respostas do Fórum também à intransigência histórica de determinadas nações, coincidentemente berços do modelo de desenvolvimento econômico neoliberal.

O recado, porém, não foi ouvido por nenhuma delas, sobretudo pelos Estados Unidos, que um ano depois do primeiro Fórum Social Mundial invadia o Iraque e submetia uma população estrangeira, mediante violência explícita, a rigoroso controle social, tudo em nome de uma guerra dita “preventiva”, eufemismo estadunidense para a predação das riquezas naturais iraquianas. O Iraque “nadar em petróleo” teria sido a principal motivação para sua invasão, conforme declarou, ainda em 2003, o vice-secretário da Defesa dos EUA, Paul Wolfowitz.

Conclamar toda a humanidade a respeitar os Direitos Humanos e a estabelecer relações igualitárias, solidárias e pacíficas entre pessoas, etnias, gêneros e povos, também foi uma resposta dos milhares de participantes do Fórum Social Mundial à prática histórica de dominação exercida por determinadas nações sobre outras. Não obstante todo esse clamor, o Estado de Israel continua a massacrar civis palestinos em nome de seus interesses políticos, negando-lhes o direito à cidadania.

Embora o Fórum Social Mundial seja tanto um espaço de reflexão quanto de proposição de alternativas, jamais deixou de responder à altura todos os desafios e problemas que se dispôs a enfrentar. Prova disso são as milhares de ações integradas realizadas em centenas de países e muitos dos recentes avanços da cidadania democrática verificados na América Latina, sobretudo naqueles países historicamente marcados por um passado colonialista. E não seria exagero se afirmar que os novos ares que hoje inspiram os cidadãos dos Estados Unidos, após a eleição de Barack Obama, têm muito daqueles que inspiraram milhões de cidadãos nesses quase dez anos de Fórum.

O que os detratores do Fórum Social Mundial precisam se dar conta é que quem deve explicações à humanidade, por conta de sua irresponsabilidade, é o atual modelo econômico de desenvolvimento, e não o Fórum. Enquanto os verdadeiros responsáveis pelo fracasso do modelo neoliberal, pelo agravamento das crises energética e ambiental e pelo crescente processo de militarização das relações internacionais continuarem se fazendo de desentendidos, apontar suas contradições continuará sendo a melhor resposta que o Fórum pode lhes oferecer.





(A foto é de Eduardo Seidl)

Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

Marcha de todos os povos pela paz



Marcha pela Paz abre Fórum Social Mundial 2009


O ponto de partida da caminhada será na praça Pedro Teixeira (Escadinha) ao lado da Estação das Docas. Representando a vinda do FSM da Àfrica para a Amazônia, os povos indígenas da região serão recebidos pelos povos da africanos e afrodescendentes e juntos compartilharão uma Ceia Sagrada. A expectativa é de que mais de 100 mil pessoas participem desta marcha pela paz

Redação - Carta Maior


BELÉM - Mais de 100 mil pessoas e 5680 organizações devem participar do Fórum Social Mundial 2009 que inicia oficialmente nesta terça-feira (27) em Belém do Pará. Até 1° de fevereiro, representantes de movimentos sociais, povos tradicionais, organizações não governamentais, sindicatos e grupos religiosos de mais de 150 países estarão reunidos para celebrar a 9ª edição do encontro altermundialista, que retorna ao Brasil. Na pauta das principais discussões está a crise econômica mundial, as mudanças climáticas e as alternativas aos modelos de desenvolvimento. O Conselho Internacional do FSM decidiu realizar o Fórum na região amazônica em reconhecimento ao papel estratégico da região para toda a humanidade (...).






(A foto é de Eduardo Seidl)

A mídia e a crise


"O comportamento da mídia na recente crise financeira internacional foi tema de debate na abertura do Fórum Mundial de Mídia Livre. Uma das conclusões foi que a chamada grande mídia não ofereceu explicações satisfatórias diante da crise, muito embora, durante anos, seus "especialistas" tenham se redobrado em esforços para legitimar o modelo neoliberal de globalização. Agora, cultivam uma conveniente amnésia que anda de mãos dadas com a diluição de responsabilidades pelo que está acontecendo na crise mundial".


Continue lendo "Qual a responsabilidade da mídia diante da crise?" na Carta Maior.







(A foto é de Eduardo Seidl)

Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

Fórum Social Mundial

La Vieja embarca amanhã para Belém, PA, onde se integra à equipe da Agência Carta Maior na cobertura do Fórum Social Mundial 2009.

Em função disso, o ritmo de postagens deve diminuir bastante até o próximo dia 02, data de meu retorno.

Gostaria de ter tratado das primeiras medidas de Barack Obama como presidente dos EUA e de seu discurso de posse, bem como de suas implicações e repercussões sobretudo na América Latina e no Oriente Médio, mas infelizmente não vai ser possível.

Faço questão, todavia, de deixar anotada a transformação pela qual passaram nossa mídia hegemônica, setores de nossa classe política e certa intelectualidade, desde os primeiros movimentos da transição estadunidense. Ficou claro em todas as coberturas que La Vieja acompanhou, por exemplo, que agora virou moda malhar George Bush.

Chutar cachorro morto, como se sabe, diz pouco sobre quem é chutado, mas muito sobre quem chuta.

La Vieja se despede, por enquanto, sugerindo a leitura de "A Idade da Mentira", para quem ainda não conferiu sua retrospectiva dos anos Bush.

Até mais.

Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

Fórum Mundial de Mídia Livre, ainda



Fórum Mundial de Mídia Livre abre inscrições


Previsto para os dias 26 e 27 de janeiro, o evento faz parte da programação do Fórum Social Mundial 2009, em Belém do Pará.

Por Leandro Uchoas, do FML


Estão abertas as inscrições para o Fórum Mundial de Mídia Livre (FMML), nos dias 26 e 27 de janeiro, evento que integra as atividades do Fórum Social Mundial 2009. As inscrições, gratuitas, são feitas pelo sítio do Fórum de Mídia Livre. A produção do FMML sugere também que os fazedores de mídia livre cadastrem as informações de seus veículos no link "Mapeamento da Mídia Livre", disponível no sitio, e dêem informações sobre suas mídias no ato de inscrição.





Com a participação de veículos independentes de produção midiática de diversos países, o encontro visa construir alternativas de produção de informação, estruturar politicamente a mídia livre internacional, discutir alternativas de financiamento e de compartilhamento de conteúdo, propagar novas possibilidades de atuação disponibilizadas pelas novas tecnologias e somar forças de atuação nas frentes diversas de democratização da comunicação.

A programação do FMML prevê a realização de duas mesas na manhã do dia 26, com os temas "Como ampliar o Midialivrismo" e "A Mídia e a Crise". No período da tarde, haverá ainda dois outros momentos, o "Seminário de Comunicação Compartilhada no FSM" e as "Atividades Auto-gestionadas", nas quais o participante do fórum torna-se protagonista. No dia 27, será realizada a Plenária de Encerramento, com a reunião das propostas e a elaboração de um documento síntese.

O FMML é uma conseqüência do I Fórum de Mídia Livre, realizado no Rio de Janeiro em junho de 2008. Reunindo mais de 500 ativistas, jornalistas, professores, estudantes e empresários, o evento significou uma inédita união política entre os principais veículos independentes de mídia brasileiros, sistematizando formas conjuntas de atuação.

Em 23 de outubro, o Grupo de Trabalho Executivo do FML lançou o Manifesto da Mídia Livre, com os dez compromissos do movimento e oito propostas principais, entre as quais a realização do FMML em Belém. O manifesto já obteve a adesão de 29 entidades e movimentos e de 25 veículos independentes nacionais. O movimento gerou a mobilização regional em vários estados do Brasil, com a realização de fóruns e seminários locais.

Mais informações:
Fórum Mundial de Mídia Livre – 26 e 27 de janeiro de 2009 – Belém, PA

Local: NPI – Escola de Aplicação da UFPA - Av. Tancredo Neves,
nº 1000 – Bairro Montese – Belém, PA. Mapa do local no site do NPI


Site: http://forumdemidialivre.blogspot.com/
Email: forumdemidialivre@gmail.com

Telefone: (91) 8130 2097 (produção)

Gustavo Barreto: (91) 9250 9594

Leandro Uchoas: (91) 8130 2097



Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

Fórum Mundial de Mídia Livre


Convite ao Fórum Mundial de Mídia Livre – Belém do Pará, Brasil, 26 e 27 de janeiro de 2009

Às vésperas do Fórum Social Mundial, midialivristas de todo planeta se reúnem para somar forças e discutir a criação de novas formas de comunicação.


Para aqueles(as) que praticam e lutam cotidianamente por uma outra comunicação, o momento presente combina a ampliação de oportunidades com o acirramento das desigualdades. Ao mesmo tempo em que se multiplicam iniciativas cidadãs e contra-hegemônicas de comunicação, acentua-se a concentração das grandes corporações de mídia e explicita-se o papel desses grupos como suporte do discurso hegemônico.


1. Os 30 anos de hegemonia neoliberal que antecederam a atual crise econômica modificaram o mundo, a subjetividade, o imaginário humano e o papel da informação na sociedade. Já as últimas décadas de mudanças tecnológicas, de mutações no capitalismo, de invenção de outras formas de compartilhar, viver, trabalhar, apontam para a crise dos modelos neoliberais e para a emergência de novos paradigmas e outros imaginários.

2. Um consenso social tem sido modelado pelos sistemas de comunicação interligados por interesses e tecnologias avassaladores. Ao mesmo tempo, novas formas de resistência e contra-discursos surgem e se disseminam buscando quebrar os "consensos". Apesar das limitações, as novas tecnologias servem à democracia participativa e surgem com impacto global e capacidade de articular redes, que funcionam sob novos modelos.

3. Uma engrenagem dioturna, formada por grandes conglomerados da comunicação, reproduz e vocaliza a mesma narrativa hegemônica que condiciona impulsos, vontades, expectativas. Por outro lado, a possibilidade da construção de outras narrativas e da apropriação de novas mídias por novos sujeitos do discurso (coletivos, periferias, minorias, etc.) é uma criação experimentada local, nacional e globalmente, a despeito de novas formas de alienação. Nunca os processos culturais, a economia criativa, a valoração da informação e do conhecimento foram tão cruciais para se pensar a sociedade.

4.
Esteja explícito ou não, muitas pessoas, redes, grupos estão condicionados a forças descomunais cujo poder destrutivo evidencia-se na incerteza desses dias, marcados por um modelo de sociedade cada vez mais socialmente injusto, economicamente insustentável, ambientalmente destrutivo, moralmente aético, acrítico e permissivo. A crise do capitalismo, da mídia de massa e do pensamento único cria, no entanto, uma oportunidade de reconfiguração das discussões sobre o papel da comunicação e da informação no mundo contemporâneo.

5. Desvelou-se, neste crash financeiro, o papel da mídia oligopólica com influência crescente sobre os destinos da sociedade, inclusive omitindo e isolando vozes e fatos dissonantes. As intersecções entre a mídia e o poder dos mercados desregulados estreitaram-se nesses 30 anos. A financeirização da economia gerou uma contrapartida de financeirização do noticiário, adicionando-se um novo instrumento à manipulação da economia. Nada mais ilustrativo desse comprometimento do que o persistente malabarismo de ocultação de um sistema especulativo só reconhecido quando sua explosão ganhou evidência incontornável.

6. Estados, governos, democracias e processos de desenvolvimento foram colocados à mercê dos desígnios e chantagens impulsionados por essa lógica auto-destrutiva. A crise financeira expõe a crise do neoliberalismo. As grandes estruturas de comunicação avalizaram esse processo, emprestando-lhe legitimidade, sedução e argumentação coercitivos. Sobretudo, revestindo-o de múltiplas estratégias de desqualificação das vozes dissonantes ecoadas por governantes, partidos, lideranças sociais ou mesmo pela resistência de uma subjetividade atemorizada e constrangida.

7. Não é mais possível lutar pela democratização econômica e social do mundo ou de uma aldeia, sem erigir muitas vozes dos mais diversos alcances, com influência internacional capaz de se contrapor à usina forjadora de supostos consensos sociais. Da mesma forma que o capitalismo é global, as lutas e a resistência são globais. Não queremos produzir um novo consenso, mas defender a possibilidade das diferenças e dos dissensos.

8. Essas vozes não serão um uníssono de sinal inverso ao que se combate, mas justamente a combinação harmônica das distintas e variadas vozes que hoje se levantam a partir da afirmação do direito à comunicação dos diversos grupos e indivíduos comprometidos com a luta por justiça social, e que tem nessa diversidade a sua fortaleza.

9. Neste momento, é ainda mais importante que os veículos não alinhados ao pensamento hegemônico, os produtores independentes de mídia e todos aqueles(as) que se pautam diariamente contra as injustiças e opressões decorrentes do neoliberalismo se reconheçam na semelhança e na pluralidade de suas inquietudes. A responsabilidade que nos une deve se materializar em fóruns e ações de abrangência que se contraponham à crise que se alastra por todo o globo.

10. Convidamos assim os veículos de informação democrática, as comunidades, os coletivos, as entidades, os movimentos sociais, os blogueiros e cada individuo – que é em si um comunicador -, a participar do I Fórum Mundial de Mídia Livre, que acontece no Brasil (em Belém do Pará), nos dias 26 e 27 de janeiro de 2009. As conclusões do FMML terão importante incidência política nas deliberações do Fórum Social Mundial, que acontece nessa mesma cidade, a partir do dia 27 de janeiro de 2009.

11.
Certos de que compartilhamos as mesmas preocupações e sentimento de urgência na construção de uma mídia livre e democrática, aguardamos a confirmação de sua presença.

Fórum de Mídia Livre, Brasil, novembro de 2008


Clique aqui para ver a programação e para se inscrever.

Domingo, 18 de Janeiro de 2009

Sobre prioridades, ainda


O orçamento da secretaria da Cultura (SEDAC) do novo jeito de governar para 2009 é de R$ 13,2 milhões, distribuídos entre "despesas correntes com pessoal e encargos sociais" (R$ 7,4 mi), "outras despesas correntes" (R$ 5,6 mi) e "investimentos" (R$ 130 mil).

O "Cultura para Todos", programa de descentralização cultural que prevê o desenvolvimento de "atividades, programas e ações culturais nos diversos municípios do Rio Grande do Sul, nas áreas de artes cênicas, artes visuais, música,artesanato e folclore, acervo e patrimônio, literatura, cinema e vídeo", bem como o "estímulo à educação cultural e à formação de público nas diferentes camadas sociais", receberá 15 mil reais.

Já para a "Publicidade Institucional" da SEDAC foram reservados generosos 312 mil reais.

Ou seja, foram reservados vinte vezes mais recursos para a divulgação e promoção de ações culturais da própria secretaria do que para um programa que interessa a todos os municípios do Rio Grande do Sul. O novo jeito de governar prefere gastar mais com a divulgação de ações culturais do que, propriamente, investir em ações culturais descentralizadas.

Bueno, o caso é que enquanto a SEDAC estiver divulgando suas ações, cada um dos 508 municípios gaúchos estará recebendo os R$ 29 que lhe tocam do programa "Cultura para Todos", caso o critério para a distribuição dos 15 mil reais que lhe foram reservados seja o igualitário.

É isso o que La Vieja chama de cultura para todos.


E isso que a própria secretaria afirmou que o acesso à cultura precisa ser democratizado urgentemente.






Os gauchinhos, porém, não terão do que se queixar. Em uma semana, receberão seis vezes mais recursos do que todos os municípios gaúchos receberão durante o ano inteiro pelo programa "Cultura para Todos".

R$ 100 mil serão destinados pela SEDAC para a realização
dos "festejos da Semana Farroupilha, em cumprimento à determinação legal, de forma a manter a tradição e valorização do evento popular mais marcante do Estado do Rio Grande do Sul".

Manter a tradição e valorizar o evento popular mais marcante do RS, La Vieja traduz, é um eufemismo para Antônio Augusto Fagundes desfilar fantasiado de Bento Gonçalves.

La Vieja, porém, entende as prioridades do novo jeito de governar. A cultura gaúcha precisa parar de pensar pequeno e começar a alçar vôos mais altos.





(Ajustando o tal do déficit zero é de Hupper)

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